segunda-feira, 11 de julho de 2011

Tijuana - SP

Como as melhores coisas de Tijuana, começou depois das 22h.Taboão da Serra via BR116 a caminho do Centro de São Paulo... Depois de quilômetros rodados, depois das vias ultrapassadas, lá estava eu. Junto, misturado a todo um movimento humano concentrado num só lugar. Concentrado em uma só idéia incerta. Incerto.Em meio a várias possibilidades. Numa só noite. As noites metropolitanas são assim. Basta estar disposto. No local certo. ''Mesmo com uma dose de incerteza. Porque às vezes se faz necessário um pouco de ineditismo." Às vezes basta menos que isso. Quando há um bocado da noite pra ser aproveitada, degustada, em mínimos ou máximos, quase nada é necessário. Sim. Além de estar vivo, claro. E veja só, sempre há noite o suficiente; pra uma diversão. Ou duas. Ou três. Sempre há o bastante. Até quando estamos em dois. Ou três. E não é que estávamos? Eu e... A noite também estava lá. Fria. E nós querendo nos aquecer. Desejando.O desejo é um assunto. O desejo é um assunto complexo. É um assunto estranho. Que eu não ousaria começar a discorrer. Mas desejar pode ser bom. Ou nem tanto. O desejo pode ser mortal, nos impulsiona a fazer coisas inesperadas. Quase sempre. Oculto até a dose seguinte.Horas depois ou dias atrás...Rodamos atrás de um hotel. Não um qualquer. Não um motel. Não aquele de esquina na avenida principal. Queríamos uma suíte digna. Quem sabe de casal... “Melhor algo menos sugestivo.” E por que não? Não fez diferença. Não encontramos. E continuamos rodando.Uma hora depois, já cansados, suspiramos. Quase desistimos. Paramos de rodar. Suspiramos. Parados. Em frente a um parque grande e escuro. Um desses parques tomados por mendigos assim que o sol se põe. Onde travestis se prostituem com qualquer um. Drogados. Que não pensam duas vezes antes de dar o resto do que não restou de sua dignidade - suja - em troca de qualquer coisa. Suja. Seus principais alimentos... anestésicos para manterem-se "vivos". Craque. Maconha... Uma comida, e tudo está nos conformes.Eu quase disse "vamos voltar pra casa e deixar essa idéia pra outro dia, vamos deixar a noite terminar no quarto que já conhecemos, tranqüila e rotineira..." Mas fui interrompido enquanto formulava meu apelo.- Alguma idéia?- Sim. Vamos voltar pro Ap.- Eu pensei numa coisa mais exótica.- O quê?- No parque...- Hummm, naquele?Olhei na direção do parque, somente o breu, tentando ver algo além. Quem sabe... Comecei a cogitar possibilidades, sem querer. Sem querer topar. Sem querer estar ali e entender seu português. Sem querer cogitar a possibilidade de ter rodado tanto para ser assassinado num parque. A contra gosto.- É a minha sugestão."Ah, obrigado. Posso ignorá-la?", pensei. E naturalmente tentei acabar com a idéia:- Mas está fechado. Esquece.- Não está. Tem uma entrada ali.- Deve estar cheio de mendigos e travestis. Drogados é que vão em parques como este à esse horário.- Com o frio que está fazendo não deve haver ninguém lá dentro.- Nem nós. "Com sorte."- É ou não é uma boa idéia?- Posso apostar... "Mas duvido.''- Hã? Pelo menos é excitante.- É?- Ah, vai, é excitante. Numa madrugada fria dentro do parque...- De baixo de um pé de árvore... Hahaha. Acho que não tem como ser mais animador...- Correndo riscos! Imagine, dá uma história.- É verdade! Posso contar para os nossos filhos e netos... Melhor, posso contar uma história dessas pro meu pai! O que você acha?- Hahahaha conta.Ainda parados na bifurcação, indecisos. Eu estava decidido, não queria. Mas imaginava. Parado na bifurcação imaginava... uma chacina? Imaginava como seria morrer. No misto de prazer e aventura, nojo e medo. No auge da satisfação, o gozo interrompido por um súbito ataque vindo da esquerda. Ou direita. Quem sabe vindo de cima, das inúmeras árvores. Ou um ataque múltiplo. "Poderia ser." Mas estaria tão escuro que não faria diferença. Diferença nenhuma. Viesse do lado que fosse, a morte nos alcançaria sem que ao menos houvesse tempo para planejar uma fuga.Desestacionei. Subi na calçada e continuei encarando o breu. Tropecei. Parei de cogitar e topei. Caí:- Então vamos.- Tem certeza? - Perguntou só pra que eu encorajasse. Fingisse querer. Eu não queria nada exótico aquela noite. Mas precisava topar. Pra não parecer bobo, pra não me sentir um covarde."Vamos é morrer aqui!"- Já estamos indo. Foi minha resposta.Silenciosos, passamos por algo parecido com um portão. Em ferrugens. Não sei se naquele momento eu descobria o que é temer algo ou era apenas uma má sensação pela falta de disposição em encarar uma noite no parque. Gelado. Mas achei que aquela idéia passava bem longe de ser excitante. Enquanto cruzávamos as trilhas de cooper e, a cada passo que dávamos em direção ao ponto mais escuro, horrivelmente o lugar se tornava uma imensidão de opções desanimadoramente macabras. Que talvez, só eu podia ver. O breu deixava de ser apenas a falta de iluminação e aos poucos já era possível identificar alguns seres...Travestis transando com viciados, na grama. No chão. Alguns vultos começavam a nos seguir, outros a uns cem metros caminhavam calmamente. Notei que estavam vindo em nossa direção. Enquanto eu, só procurava uma saída:- Vamos sair daqui agora.- Tem um portão em frente.- Não!!! Está cheio de coisas estranhas, em frente! Vamos sair por aqui mesmo!Pulamos a grade que dava para a passarela de um viaduto. Onde tinha um drogado, bêbado, mendigo ou sei lá, que nos obrigou a cumprimentá-lo: "Ah, sim, mano, tudo legal. Tchau, hein!?"A Rua Sem NomeNum estado espiritual que nunca morre, a letra de perfeito encaixe na melodia, tocando na minha cabeça: Desintegration... Sim. The Cure, meu caro letrado. Especialmente auditivel aquele momento. "Como as coisas parecem lindas em textos..." E como as letras se encaixam bem agora... A realidade é bem mais triste. E eu, melancólico. Não me encaixo em quase nada. Nem neste conto. Nem naquela noite. Nem em mim. Mas, quem iria entender meus porquês, quem me entenderia aquela noite? Talvez, quem não tenha vícios em comum e não ouviu Desintegration. Não, não. Não que seja pretensão a incompreensões. Não, não. Não é exclusão de incapazes. É só uma pequena seleção. Que encaminha quem não tem base underground suficiente pra me ouvir, me ler... Em espaços preenchidos com minha opinião. Como eu quero que seja. Quem iria me entender...E a letra continuava na cabeça. Porque não estávamos tão próximos um do outro quanto parece. "Mas eu nunca disse que ficaria até o fim." (...)Eu percebi, antes mesmo de cruzar vias atrás de um feriado menos solitário, percebi que a noite custaria a terminar. Longe de uma cama, longe da paz, num quarto de hotel, longe de casa; perto de um recomeço. A dois quarteirões de distância do que eu já não queria. Acima de tudo, naquele momento "o que eu sabia é que estávamos despedaçados." (...)De volta ao ponto inicial da busca por saciar o desejo. Tentando achar aquela rua sem nome onde havíamos encontrado um quarto vago pouco tempo antes de nos perdermos em idéias exóticas e saltos mortais. "Quando nós dois sabemos. Como o fim sempre existe." (...) O hotel surgiu, com um néon vermelho acima da porta de entrada. Era do mesmo tamanho que o primeiro. O predio pintado na mesma cor de horas atrás. Tinta verde. Encardida de poluição. Como todos os outros prédios. Nenhuma placa com o nome da rua. "Deve ser aqui". Fiquei olhando o prédio verde, imaginando que estávamos em outro lugar. Como numa outra cidade de um país latino. Mas aquele era o hotel certo. Então, ouvi o que há minutos atrás faria diferença:- Bem que você disse pra ficarmos por aqui mesmo.Era verdade. "Tantas voltas, nenhuma troca de marcha. Quase duas horas de semi-silêncio", pensei. Mas me recusei a concordar verbalmente e respondi:- Essa droga de lugar parece ser legal. "Zoado como o México."- Não viaja. Vai ficar admirando o lugar o resto da noite? Vem, sobe.Subimos as escadas tortas. De cara com um portão elétrico, tocamos o interfone. "Agora parece um presídio. Ainda no México." O portão se abriu e ainda subimos o restante dos degraus. Ao lado de um balcão protegido contra bombas atômicas, as placas informativas: “PERNOITE: R$ 60; 03h: R$ 40; 01h: R$ 20” e entre grades de uma janelinha 30x20cm, um atendente retardado nos passava a maquina de cartão de crédito.- Que horas são?- Meu celular está na mochila. - Eu disse, sem saber. - Mas, devem ser umas três horas.- Vamos ficar quanto tempo?- Sei lá. Decide aí. Só quero me jogar na cama e dormir.- Ok. Ficaremos até de manhã...- Demorou. Vamos.O atendente saiu do tanque de guerra e indicou a direção para um labirinto de corredores onde, por cinco minutos, procuramos a suíte número doze. Quando a encontramos, eu já estava com fome:- Uma vodka iria bem, não?- Tem um menu em cima da mesinha.- Mas será que tem serviço de quarto?- Não sei, mas vou testar o chuveiro agora. Ah, liga a TV.- Vou conhecer o ambiente! Gritei.O quarto devia ter uns 15m², um ventilador ao lado da tv suspensa por um daqueles negócios que servem pra isso. Do lado esquerdo havia uma pequena janela seguida da porta.Liguei a tv e baixei o som do filme pornô.- Em que canal eu deixo essa merda? - Gritei mais uma vez - Quero tomar banho também!- Nesse de putaria mesmo! Vem!Os personagens do filme - não posso dizer que eram atores - gemiam de uma maneira estranha que eu não conseguiria reproduzir aqui. Nem ali!"Mudo é melhor."Continuará...A Sorte de Um Amor    Deitado na cama, estiquei as articulações, relaxei por uns segundos. Sem pensar em mais nada. "Our love was lost. But now we've found it. And if you flash your heart... I won't deny it. I promise..." (...) Foi o bastante para que tudo o que havia acontecido até aquele momento se apagasse da minha mente. Assim que fechei os olhos. Sob as pálpebras, a luz da tv criava manchas como matiz de esmeraldas vermelhas, me entretendo por algum tempo, em silêncio.
O único ruído vinha do banheiro, junto com o vapor e um cheiro de erva-doce. Dessa maneira, ao som da água caindo, fiquei imaginando... Eu poderia ver com meus prórpios olhos, pois a porta do banheiro estava aberta e nele não havia box. Se levantasse e abrisse meus olhos, eu poderia ver. Mas preferi descansar e esperar até que terminasse o banho. Imaginando. A espuma do sabonete escorrendo por aquele corpo... Em cada um dos movimentos que sempre foram tão sensuais quanto nunca antes tranquilizantes.


Um comentário:

Diz-me o que vibra.

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